A Bíblia como literatura e referência literária

  • 26 de fev, de 2021

Até 1960, mais ou menos, a Bíblia não foi apenas alimento espiritual para milhões de pessoas, foi também uma importante referência literária. A nossa literatura tem um grande número de alusões a personagens, situações, narrativas e provérbios bíblicos. Mesmo em romances com temas não religiosos, a atmosfera de alusões à Bíblia era constante, mesmo em autores dos quais jamais esperaríamos. Mas, por que isso não está acontecendo agora?

 

 

A partir desta data, mais ou menos em meados do século passado, essa circunstância mudou notavelmente e pode-se dizer que hoje o ambiente bíblico desapareceu da literatura, a Bíblia quase morreu como referência literária. Por quê?

Um dia, vi um colega, um ilustre professor de francês, Javier de Prado, que andava furioso pelos corredores da faculdade, e lhe perguntei, “O que há de errado Javier?” Ele me olhou e disse, “Estou desesperado, estou dando uma aula sobre Emilio Zola (romancista francês do século XIX, muito famoso na literatura francesa por ter dado voz ao realismo mais imoral, pelo menos segundo alguns, já que a Igreja o condenou ao “Índice dos livros proibidos”) e não consigo fazer que meus alunos entendam nada porque não sabem nada sobre a Bíblia!”

As causas para isto acontecer são gerais. Um ambiente cada vez mais secular, sobretudo, com um evidente declínio das religiões, aliado a um notável aumento do interesse pela ciência como marco da nossa curiosidade. Ciência em sentido amplo, incluindo ficção científica, espaço e origem do universo, eletrônica e natureza como objeto de estudo, todo esse conjunto “científico” é hoje o mais abundante nas obras literárias.

A Espanha tem contribuído com este retrocesso da Bíblia como leitura pelo fato de termos partido de uma posição de desvantagem em relação a outras nações, foi uma tradição inveterada da Igreja Católica desencorajar, ou quase proibir, nos séculos passados, a leitura privada da Bíblia, por medo de que os fiéis a interpretassem mal. No semiconsciente dos espanhóis, não existe— como acontece em outros países, sobretudo os protestantes— ler um trecho da Bíblia como parte da rotina diária A grande maioria dos espanhóis não leu a Bíblia na íntegra, e muitos também sequer leram os Evangelhos.

No entanto, a Bíblia, além de ser um livro de ideias religiosas ou de história, é um livro divertido de se ler. Não tudo, certamente, mas muito é. Estou convencido de que o sucesso da religião, em parte, tem a ver com a contribuição que a Bíblia dá como belo elemento literário. No Cristianismo, sem dúvida. E em outras religiões também. O Alcorão, em partes que contêm poucas histórias, é um belo livro por seu vocabulário, por seu ritmo poético, por suas rimas internas. A beleza de sua linguagem contribui muito para tornar mais fácil para as pessoas memorizá-lo e fixar em suas mentes a mensagem religiosa que contém.

Existem duas maneiras de dizer, “Fulano é um homem mau”. A primeira é expressar isso assim, como está, com uma formulação abstrata. A segunda consiste em construir uma história interessante em que se pintem cenas ou situações nas quais Fulano age como um homem mau. Não há dúvida de que a segunda maneira é muito mais eficaz.

E isso é o que a Bíblia faz, especialmente no Antigo Testamento: contar histórias nas quais são transmitidas mensagens religiosas. Acho que boa parte da perda de influência da Bíblia na sociedade espanhola é a quase eliminação da Bíblia como uma leitura na forma de “História Sagrada” nos livros religiosos escolares. Com a História Sagrada, as mensagens religiosas eram facilmente transmitidas através do interesse que as histórias despertavam nas crianças.

Não estou dizendo que os livros de religião de hoje não estejam belamente ilustrados, pedagogicamente bem pensados. Ao contrário. Em geral, os livros didáticos de hoje são muito melhores do que os de antigamente, tanto em sua apresentação quanto em sua técnica de comunicação. Mas eu observo uma grande perda da influência da História Sagrada nas aulas de religião.

Gonzalo del Cerro escreve hoje sobre este tema e oferece-nos um exemplo de uma bela história bíblica, desconhecida para a maioria dos nossos filhos, e que todos nós conhecemos, a história de José, filho de Jacó. A história conta como José foi vendido pelos seus irmãos e sua sina no Egito: como resiste aos desejos desonestos de uma mulher má e como depois foi preso. O faraó tinha sonhos que só José pode decifrar. O monarca, muito admirado, o nomeia seu conselheiro e primeiro-ministro, posição na qual ele tem muito sucesso. Seus irmãos, impulsionados pela fome que tomou conta das terras israelitas, decidem ir comprar trigo ao Egito. José os reconhece e arma-lhes uma armadilha de amor que faz que, no final, todos decidam ir morar no Egito, onde o Faraó lhes dá uma região inteira do país.

Pois bem, esta história é literariamente tão boa que atende a certos padrões que Aristóteles exige em sua Poética (lembremos que em O Nome da Rosa os crimes são cometidos para tentar evitar que a parte perdida desta obra chegue ao público, tão fundamental era o efeito da Poética, conforme pensava a monge assassino).

Gonzalo del Cerro nos conta como a Poética é uma das obras mais importantes de Aristóteles. Não é muito longa, mas é especialmente valiosa. Uma obra que trata da teoria da obra literária. Pois é isso o que a Poética é etimologicamente, não um tratado sobre “poesia” no sentido que a palavra tem nas línguas modernas, mas um estudo sobre a “obra literária” em geral.

A Poética contém palavras básicas que envolvem conceitos fundamentais. A primeira é o termo que define a obra literária: Mýthos (mito), exposição ou relato de alguns acontecimentos que o autor apresenta através de Mimesis ou imitação de acontecimentos reais. Em várias passagens da Poética, Aristóteles deixa traços de seu conceito de Mito: é uma “síntese” desses fatos imitados (Poét., 6, 1450 a).

No decorrer dos acontecimentos, ele distingue três partes da composição literária, que se tornam elementos constituintes: a peripéteia (vicissitudes), a anagnórise (reconhecimento) e o páthos (fato patético). O páthos é o conjunto de acontecimentos dolorosos (Poét., 11, 1452 b). A anagnórise é “a mudança (metábole) da ignorância para o conhecimento” (Poét., 11, 1452 a). E a peripéteia é “a mudança de uma situação para o seu oposto” (Poét., 11, 1452 a). A anagnórise atinge sua maior beleza quando é acompanhada pela peripéteia, ou seja, quando o reconhecimento provoca uma mudança de fortuna nos atores do “mito”.

A Poética de Aristóteles não é, nem em sua intenção, nem em sua realização, um tratado sobre literatura. Não estabelece normas às quais os autores de uma obra literária devem aderir. Em vez disso, descreve o sistema que os autores seguem na prática. Não diz o que Sófocles deveria fazer em Édipo Rei, mas o que ele fez. E o toma e apresenta como paradigma.

A Bíblia é, além de outras considerações, uma obra literária na qual convergem grandes gênios da literatura. Nela encontramos passagens onde se reflete a doutrina patenteada por Aristóteles.

A história de José e seus irmãos (Gênesis 37-47) é uma das mais belas histórias (mitos) de toda a Bíblia. A narrativa tem uma antiguidade venerável, pois se baseia quase que exclusivamente nas tradições chamadas pelos técnicos de yahvistas (para chamar Deus usa-se preferencialmente o nome de Yahweh ou Javé) e eloístas (para chamar Deus usa-se preferencialmente o nome Eloim), que são as tradições mais antigas do Pentateuco. O páthos fica refletido nos numerosos arrependimentos que marcam todo o episódio. A anagnórise é o material da narrativa em Gênesis 45, os filhos de Jacó descobrem que “o chefe de toda a terra do Egito” era seu próprio irmão. A peripéteia, como preferia Aristóteles, é aqui a consequência imediata do reconhecimento. Então ocorre uma mudança radical (metábole). Os irmãos de José vão, sem solução de continuidade, de uma situação desesperadora a uma de felicidade sem limites, de necessidade e vergonha a opulência e glória.

Até aqui Gonzalo del Cerro mostra bem claramente como esta história de José e seus irmãos transmite, muito melhor do que qualquer formulação abstrata, a ideia da conveniência do perdão fraterno e da recompensa que Javé dá aos que lhe são fiéis. E, além disso, é divertido lê-la.

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